O Rio, o patrimônio impessoal e a dignidade rebelde

No último final de semana, o título de Patrimônio Mundial foi concedido à cidade do Rio de Janeiro, tida como referência internacional de “paisagem cultural urbana”. A despeito das comemorações puxassaquísticas fornecidas pelo glorioso jornalismo brasileiro, fiquei me perguntando qual é o real impacto deste fato na vida de quem mora no Rio. Evidente que o Rio é lindo, e vou poupar a leitora e o leitor de repetir a mesmice estupefata de suas belezas naturais; tem quem faça isso muito melhor do que eu e acho que a experiência é muito mais relevante do que a retórica. Alguns diriam que não se resume às paisagens, mas também às construções humanas: o Aterro do Flamengo, as obras de Niemeyer espalhadas pela cidade, as construções históricas do Centro da cidade. Ainda assim, essa visão me parece incorrer de um erro crasso: patrimônio da humanidade que não tem nos seres humanos a sua principal riqueza, está fadado a celebrar um mero cenário, e não um mundo cheio de vida e criação.

E neste quesito, esta cidade tão lindamente provida de espaços marcantes ainda prossegue deixando de valorizar a sua principal riqueza: as brasileiras e brasileiros que têm nas suas vidas a síntese da história destes espaços. É muito triste que a cultura do samba, da resistência das favelas, do funk dos morros, do trabalho nas condições diversas e adversas, da mobilidade na cidade, seja uma vida que a cidade esconde com vergonha, pelo desrespeito com que trata as pessoas que aqui moram e trabalham. O mundo da propaganda de governos é um Rio tão distante da realidade, que é preciso de passaporte para entrar; não é este o Rio em que eu e tantas outras pessoas moram.

Ainda é uma cidade em que muitos são assassinados por serem pretos, pobres ou quase pretos de tão pobres, em que o poder das milícias fica acima das mínimas liberdades democráticas, em que os serviços públicos deterioram a olhos vistos, no mesmo ritmo em que as isenções de impostos para grandes corporações crescem. Nestas condições, uma palavra sintetiza bem a luta diária de cariocas da gema, radicados ou adotados: dignidade.

Essa palavra, tornada célebre em meio aos anos 1990 como a principal bandeira levantada o movimento zapatista mexicano, não é qualquer coisa. Ela representa o ser sujeito de transformação, que em tempos de desrespeito flagrante, exige que ela se manifeste ativamente. Hoje em dia não é possivel ter dignidade passivamente, ser digno se acomodando. A dignidade como conquista exige rebeldia, indignação, atitude, ativismo, ou seja, exige amor à humanidade. Que patrimônio pode ser mais rico do que um povo que se sabe digno porque luta?

Fico feliz de ver que estudantes, professores, artistas, religiosos, intelectuais, trabalhadores dos mais diversos ramos, defensores de direitos humanos, feministas, militantes do movimento negro, cadeirantes, pescadores, e tantos outros, ao apostarem na construção da Primavera Carioca, estão construindo a dignidade rebelde como o maior patrimônio do Rio. Essa construção nenhuma eleição, título da ONU ou megaevento esportivo pode tirar de nós.

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